Brincar de esconde-esconde numa nebulosa
Publicado por Aha! em 08/09/2008

“Drops sabor inspiração e cultura coloridos afetivamente.”
“Drops de Pérolas 003”
Estudei em um colégio alemão. Colégio Imperatriz Leopoldina.
Colégio rígido, e, portanto, de educação quebradiça. Rígido a ponto de impedir a entrada de alunos com cabelo comprido em plena década de noventa, ou de encontrar e mandar para casa quem não estivesse usando as obrigatórias meias de cor bege – tão obrigatórias quanto o uniforme marrom e verde (que cores fenomenalmente militares!).
Estudei alemão durante anos e hoje apenas me recordo da palavra mais longa que conheci: Füssballweltmeistershaft. Copa do Mundo.
Química, física, biologia e matemática eram quatro estágios que Dante havia se esquecido de incluir em sua descrição do inferno, mas ainda não eram o pior. O pior era apanhar.
A turma era criativa. Meus colegas de classe – alguns deles repetentes – encontravam maneiras divertidíssimas de me humilhar… Ora com dois me segurando enquanto um socava meu estômago, ora esfregando lanche no meu rosto… e, enquanto a sina se repetia, eu me perguntava onde estava toda a rigidez disciplinar que dava a tônica da instituição de ensino.
Mas o que ficou mais marcante para mim foi o ritual do lixo. Durante um bom tempo, a grande diversão da garotada era me jogar no lixo. Posso assegurar que para um pré-adolescente branco de classe média, ser jogado no lixo equivale aos rituais de fortalecimento presentes nas culturas indígenas, como o ritual do formigueiro ou da urtiga. Aprende-se a superar a dor e a fraqueza.
Diante de um cenário tão pouco amistoso no colégio (em casa não era muito diferente), conheci amigos incríveis que me deram suporte e que me acompanham até hoje: os quadrinhos.
Conheci criações de muitas décadas anteriores a mim. Conheci tempo congelado. Conheci traços diversos, narrativas, universos onde tudo podia acontecer mesmo.
Pela porta aberta nas dicas coletadas de comics em comics, entraram literatura, música, cinema… e posteriormente as artes plásticas, a filosofia, a mitologia. E, de leitor, passei a criador precoce. Nos domínios do meu universo, as coisas seguiam novas regras – e eu já quase nem sentia a hostilidade ao meu redor.
Passei a me entender como um diferente, e aprendi que o mundo demora mesmo a acolher o diferente. Após um período de revolta contra tudo e todos, gradualmente fui perdoando aqueles garotos. Eles não conheciam o Stan Lee, o Frank Miller, o Angeli, o Milo Manara, os quadrinhos do pós-guerra, a força do nanquim sobre o papel couché… o cheiro do papel impresso… as tardes tentando copiar os desenhos, criando novas histórias. E não sonhavam nas aulas de literatura, não embarcavam na poesia de Camilo Peçanha, Álvares de Azevedo, Vinícius de Moraes. Em suma, não haviam sido abduzidos.
A arte educou minha alma e salvou a minha vida. Amo esta nave e hoje sou seu co-piloto. Nem todos têm olhos para vê-la, mas os que têm eu abduzo sempre que posso. Todos são bem-vindos nesta viagem rumo a universos menos brutais.
“Educar pela arte é mostrar que é possível ser infinito. Mesmo coberto de lixo.”
Fabio Woody
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Henrique disse
Acho fantástica a idéia de fugir do mundo em que se encontra e mesmo assim ainda permanecer nele… faço a mesma coisa, diversas vezes.
Ajuda muito a pensar, colocar as idéias em ordem.